Minha tia adora cães, mas não entende nada de cachorros. Isso é fato.
Há alguns anos atrás uma vizinha doou-lhe um filhote de pintcher mentindo descaradamente que o bichinho era um mestiço de pastor-alemão. Pastor-alemão, imaginem vocês. Quando vi o bicho meses depois, saquei que a mulher havia mentido, mas minha tia ingenuamente acreditou que o cãozinho com manchas amarelas e negras semelhantes às de um “pastor capa-preta” cresceria e se tornaria um ferocíssimo defensor da casa. Portanto ela adotou e batizou o filhote com o singelo nome de “Negão”.
É isso mesmo o que vocês leram, minha tia, que nunca teve noção alguma sobre a discussão a respeito de racismo e de como a classe média é um nicho social cheio de preconceitos e blá, resolveu homenagear o pintcher na cor que mais chamava a atenção no momento da adoção: a cor negra. Na cabeça dela o cachorro ficaria enorme e Negro. Intimidante, etc. Então "Negão" seria um bom nome. Ela se enganou duas vezes: a primeira ao pensar que o animal ficaria grande e a segunda ao escolher o nome, o qual se revelou uma fonte de constrangimentos sociais diante de amigos e vizinhos.
Como esperado, genética é genética e o pintcher cresceu e se tornou um... pintcher. Um pintcher gigante, porque – lógico- era um mestiço, mas mesmo assim bem longe de se tornar um animal de porte médio, quanto mais um de grande porte.
A única coisa que a minha tia acertou a respeito do seu pet, além da cor predominante, foi sobre sua ferocidade. O que lhe faltava em tamanho, sobrava-lhe em valentia e chatice. Negão era um dos cachorrinhos mais bravos e ranhetas que você pode imaginar. Ruim para comer, o bicho era magérrimo e corria veloz como um galgo ao redor da casa, latindo e provocando o maior escarcéu diante da suspeita de presença de estranhos. Traiçoeiro, Negão fazia a maior manha quando ficava doente e precisava tomar injeção. Sempre tentava atacar e morder quando era medicado e depois solto. Eu mesma, quase já fui mordida pelo pestinha uma vez.
O problema é que ele não podia sair à rua, pois adorava atacar estranhos de forma traiçoeira, principalmente ciclistas. Uma vez essa mania de atacar traiçoeiramente, aliada ao seu nome, quase rendeu uma briga na rua com um dos vizinhos. Já era mais ou menos umas seis horas da tarde e estávamos conversando tranquilamente em frente ao portão.
Sem que percebessemos o cachorrinho ranheta havia escapado e se postado ao lado de minha perna. Só percebemos o acontecido quando ele disparou latindo furiosamente em direção à rua, mas era tarde demais para pegá-lo ou impedí-lo. A única reação de minha tia foi gritar em alto e bom som o nome do cachorro.
_ NEGÃOOOO!
Nesse momento o ciclista e o cachorro pararam instantaneamente. Tarde demais, percebemos que o ciclista era um homem jovem, enorme e... Negro. O pobre parou a bicicleta e nos olhou de uma forma tão indignada, revoltada e... não sei nem definir. Ele estava com raiva e ia nos xingar ou coisa pior. Tudo o que sei é que eu fiquei pálida observando o rosto dele. Minha tia, coitada, ao perceber o mal entendido ficou amarela, depois verde. Eu fiquei vermelha e o homem, empalidecido de indignação, estava cinza. Tudo o que me passou pela mente é que aquilo daria o maior quiprocó com xingamentos, cadeia, processo na justiça por racismo e tudo mais, porém nesse exato momento o homem viu o cachorrinho preto voltando para perto de minha tia, o rabinho encolhido entre as pernas, arrependido.
Foi aí que ele entendeu. Balançando a cabeça e sorrindo, o homem lançou-nos um último olhar antes de voltar a pedalar sua bicicleta, seguindo o caminho. E nós duas, sem dizer mais nada sobre aquela gafe monstruosa, seguimos com nossa vida e nunca mais comentamos sobre o ocorrido.
Depois disso, e já faz anos que essa cena aconteceu, minha tia passou a chamar o cachorro de “Nê” ou “Ney”. Ele já está bem velhinho e se acostumou com a nova forma de seu nome.
Quanto a minha tia, hoje ela até que tem outro cachorro, um basset mestiço.
Seu nome é Fred.
Marcadores: Comportamento, Pessoal




