sexta-feira, 6 de novembro de 2009

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Ollie às 11:57 PM |

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Minha tia adora cães, mas não entende nada de cachorros. Isso é fato.
Há alguns anos atrás uma vizinha doou-lhe um filhote de pintcher mentindo descaradamente que o bichinho era um mestiço de pastor-alemão. Pastor-alemão, imaginem vocês. Quando vi o bicho meses depois, saquei que a mulher havia mentido, mas minha tia ingenuamente acreditou que o cãozinho com manchas amarelas e negras semelhantes às de um “pastor capa-preta” cresceria e se tornaria um ferocíssimo defensor da casa. Portanto ela adotou e batizou o filhote com o singelo nome de “Negão”.
É isso mesmo o que vocês leram, minha tia, que nunca teve noção alguma sobre a discussão a respeito de racismo e de como a classe média é um nicho social cheio de preconceitos e blá, resolveu homenagear o pintcher na cor que mais chamava a atenção no momento da adoção: a cor negra. Na cabeça dela o cachorro ficaria enorme e Negro. Intimidante, etc. Então "Negão" seria um bom nome. Ela se enganou duas vezes: a primeira ao pensar que o animal ficaria grande e a segunda ao escolher o nome, o qual se revelou uma fonte de constrangimentos sociais diante de amigos e vizinhos.
Como esperado, genética é genética e o pintcher cresceu e se tornou um... pintcher. Um pintcher gigante, porque – lógico- era um mestiço, mas mesmo assim bem longe de se tornar um animal de porte médio, quanto mais um de grande porte.
A única coisa que a minha tia acertou a respeito do seu pet, além da cor predominante, foi sobre sua ferocidade. O que lhe faltava em tamanho, sobrava-lhe em valentia e chatice. Negão era um dos cachorrinhos mais bravos e ranhetas que você pode imaginar. Ruim para comer, o bicho era magérrimo e corria veloz como um galgo ao redor da casa, latindo e provocando o maior escarcéu diante da suspeita de presença de estranhos. Traiçoeiro, Negão fazia a maior manha quando ficava doente e precisava tomar injeção. Sempre tentava atacar e morder quando era medicado e depois solto. Eu mesma, quase já fui mordida pelo pestinha uma vez.
O problema é que ele não podia sair à rua, pois adorava atacar estranhos de forma traiçoeira, principalmente ciclistas. Uma vez essa mania de atacar traiçoeiramente, aliada ao seu nome, quase rendeu uma briga na rua com um dos vizinhos. Já era mais ou menos umas seis horas da tarde e estávamos conversando tranquilamente em frente ao portão.
Sem que percebessemos o cachorrinho ranheta havia escapado e se postado ao lado de minha perna. Só percebemos o acontecido quando ele disparou latindo furiosamente em direção à rua, mas era tarde demais para pegá-lo ou impedí-lo. A única reação de minha tia foi gritar em alto e bom som o nome do cachorro.
_ NEGÃOOOO!
Nesse momento o ciclista e o cachorro pararam instantaneamente. Tarde demais, percebemos que o ciclista era um homem jovem, enorme e... Negro. O pobre parou a bicicleta e nos olhou de uma forma tão indignada, revoltada e... não sei nem definir. Ele estava com raiva e ia nos xingar ou coisa pior. Tudo o que sei é que eu fiquei pálida observando o rosto dele. Minha tia, coitada, ao perceber o mal entendido ficou amarela, depois verde. Eu fiquei vermelha e o homem, empalidecido de indignação, estava cinza. Tudo o que me passou pela mente é que aquilo daria o maior quiprocó com xingamentos, cadeia, processo na justiça por racismo e tudo mais, porém nesse exato momento o homem viu o cachorrinho preto voltando para perto de minha tia, o rabinho encolhido entre as pernas, arrependido.
Foi aí que ele entendeu. Balançando a cabeça e sorrindo, o homem lançou-nos um último olhar antes de voltar a pedalar sua bicicleta, seguindo o caminho. E nós duas, sem dizer mais nada sobre aquela gafe monstruosa, seguimos com nossa vida e nunca mais comentamos sobre o ocorrido.
Depois disso, e já faz anos que essa cena aconteceu, minha tia passou a chamar o cachorro de “Nê” ou “Ney”. Ele já está bem velhinho e se acostumou com a nova forma de seu nome.
Quanto a minha tia, hoje ela até que tem outro cachorro, um basset mestiço.
Seu nome é Fred.
Marcadores: Comportamento, Pessoal
segunda-feira, 2 de novembro de 2009

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Ollie às 4:00 PM |

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O condicional: “Seguinte: eu só te sigo se você me seguir de volta”;- O swingueiro: “Olha, primeiro eu te sigo, depois é a sua vez, okay?”
- O compulsivo: “Vou te seguir de perto feito sombra”. Quando você for ao banheiro, estarei lá, te esperando”; “ Quando você estiver dormindo, o bafo quente que você sentir no cangote será o meu”.
- O paranóico: “Quem, em nome do @criador, são essas pessoas que não conheço me seguindo?” [ele reclama, mas na realidade gosta. ;)]
- O placa-de-trânsito: “Indico @fulano; indico @cicrano; etc.”
- O carente: “Ah, ninguém me segue? Ninguém que eu sigo me segue de volta, chuif... :´( “ [O dó, alguém dá um lencinho para ele (a)?]
- O chiliquento: “Puta que pariu, eu sigo esses filhos da mãe e eles não me seguem de volta. Vou dar unfollow em todos esses ingratos. ”
- O interesseiro: “E qual é mesmo a sua relevância na internet para que mereça ser seguido por mim?”
- O fã incondicional: “Oi, [insira aqui o nome de uma celebridade], sou seu (sua) fã. Adoro seu trabalho e estou te seguindo, ok? [insira aqui um símbolo representando a expectativa dele (a) de receber um reply ou – Glória nas Alturas – ser seguido de volta pela celebridade que bajula ]
- O comerciante: “Pessoal, estou fazendo campanha para chegar aos [insira aqui um número que represente a meta a ser alcançada por ele] followers. Me ajuda aí e me indique para seus seguidores. Grato (a) “
- Homem do Baú: Vive prometendo sortear brindes para os seguidores.
- O contador: Faz cálculos para saber quantos followers faltam para completar [insira aqui o número desejado por ele]
- O negociante: “Todo mundo que me segue, em breve será seguido de volta e eu vou indicar para os meus outros [n] seguidores.”
- O invejoso (a): Esse fica preocupado com os seguidores dos outros – “Esse @fulano (a) tem muitos seguidores, porque usa script”
- Garoto (a) Reply: Vive conversando (na maioria das vezes sozinho) no twitter, de preferência com twitteiros que ele (a) acredita ter alguma relevância na meritocracia informal da internet (seja lá o que for que isso signifique). Se você tem menos de 150 seguidores, nem perca tempo, ele não vai dirigir-lhe a palavra, quanto mais seguir de volta.
Existem mais tipos, lógico, porém esses são os mais fáceis de encontrar por lá. Aliás, são os tipos que mais me ocorreram, quando resolvi escrever esse post.
Marcadores: Humor, Internet, Opiniao
domingo, 1 de novembro de 2009

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Ollie às 9:04 PM |

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Quando a filha mais velha apareceu em casa e disse que estava grávida foi um pandemônio. Tradicionalíssima família católica, para eles era inadmissível que uma filha perdesse a virgindade antes de se casar de véu e grinalda. Uma gravidez de mãe solteira, então? Nossa, para eles o que de pior poderia acontecer no seio de uma família.
O pai reagiu com violência. Atirou coisas na parede. Xingou.Ameaçou. Exigiu saber o nome e o endereço do pai do bebê.Queria lavar sua honra, obrigar o D. Juan a assumir a responsabilidade nem que para isso tivesse que surrá-lo até quase a morte. Porém toda essa ira esvaziou-se feito um balão furado quando a filha disse, chorando, que não sabia quem era o pai. Sim, ela não sabia dizer quem era o pai, sequer conhecia-lhe o nome. Tecnicamente poderia ser qualquer um.
Tudo havia acontecido cerca de três meses atrás na época da excursão escolar organizada durante as férias de verão. Os professores levaram os jovens interessados de duas classes do 3º ano do ensino médio para um encontro de jovens. Nada mais seguro, pensaram os pais. Nada mais enganoso, porque foi justo nesse evento, durante um dos longos passeios organizados através da bucólica paisagem salpicada de cachoeiras e pequenos bosques, que a pequena libertina envolveu-se numa rápida orgia com mais cinco jovens com idades variando entre 16 e 17 anos. Todos desconhecidos. Ninguém usou preservativo!
Ao constatar o fato, confessado entre soluços e lágrimas pela filha, o pai simplesmente sentou-se numa cadeira e chorou de vergonha durante horas. A mãe soluçava desesperadamente de um lado e a filha chorava baixinho de outro, o som lamuriento de seu pranto mal escapando dos lábios rosados, enquanto escondia a vergonha estampada no rosto de princesa celta atrás dos longos cabelos castanhos.
_ E agora? _ Soluçou a mãe, depois de enxugar o nariz gotejante na barra de um gracioso avental de algodão branco.
_Agora só tem uma saída _ Disse o pai com uma expressão sinistra.Surdo aos rogos da esposa e menos ainda o choro assustado da filha, o homem estava irredutível. Não passaria por essa vergonha. E não estava disposto a sustentar um neto bastardo, filho de pai desconhecido. Tinha um nome a zelar, afinal de contas e não seria a libertinagem daquela pequena rapariga que colocaria tudo a perder. No dia seguinte, bem cedo, ligaria e marcaria um horário com o Dr. Laerte, médico de confiança e seu amigo desde os tempos de colégio.Porém, sua consciência o acusava.
Afinal de contas, existia toda uma herança cultural católica romana por trás de sua criação e, por conta disso, ele custou dormir naquela noite. Quando caiu no sono, teve um sonho muito estranho, muito real. No sonho ele estava na cama e tentava dormir, mas o choro lamurioso de uma criança o incomodava. De repente, uma voz dulcíssima emergiu por sobre aquele choro de criança e chamou-o pelo nome.
_ Quem? Quem me chama?
_ Sou eu, o guardião da alma de seu neto, eu estou aqui para interceder por ele. O que você pretende fazer hoje pela manhã será uma falta terrível aos olhos de Deus e você sabe disso. Você estará interferindo nos planos divinos ao impedir o nascimento desse ser inocente. Toda vida é um dom. Toda vida é preciosa...
_Mas... Eu não posso permitir que isso aconteça. A minha filha é muito jovem para ser mãe.
_ O Universo tem razões que a própria razão desconhece. Essa vida que está por vir tornar-se-á uma fonte de alegrias e bênçãos para sua família. E sua filha não ficará desamparada. Ela contará com o amor de vocês como fonte de consolo. Lembre-se: “toda vida é preciosa”. Deus proverá. Confie, tenha fé.
O homem acordou chorando. Nunca em toda sua vida havia sonhado com um anjo. Lembrou-se da história de José e emocionou-se ainda mais. Eram sete horas da manhã e dali a pouco teria ir até a clínica do outro lado da cidade, marcar um horário, combinar tudo com a maior discrição possível. Porém nem continuou pensando nesse assunto. Descalço e com os cabelos revoltos pelo sono, correu para o quarto da filha e a encontrou ainda dormindo, a mãozinha branca e delicada repousando sobre o ventre ainda plano, como se quisesse proteger a vida que ali crescia, alheia aos acontecimentos do mundo externo.
_Filha... Filha! _ Praticamente gritou ao abraça-a._Eu te amo, eu te amo, filha... Você é minha princesinha querida. Não vamos mais naquele lugar terrível. Vamos dar um jeito, eu, você e sua mãe. Nós vamos enfrentar isso todos juntos como uma família. E nem me importo com o quê pensarão sobre essa gravidez, eu vou apoiar você, filha; eu vou assumir esse neto, ou neta.
_Oh Papai! _A jovem abraçou-o em prantos. A mãe que assistia tudo da porta correu para abraçá-los e a irmã caçula, que sequer tinha noção do que estava acontecendo ficou olhando através do umbral com expressão surpresa estampada no rosto.
_ Toda vida é uma benção. Nossa família foi abençoada. Abençoada! _ Dizia o pobre homem, enquanto lágrimas de beatitude rolavam de suas faces magras.
Cerca de sete meses depois a filha deu à luz aos filhos. Gêmeos!
Duas semanas depois do batismo de Douglas e Diego, a filha caçula achou por bem anunciar, solenemente, durante o jantar:
_Pai, estou grávida!
O silêncio sepulcral que tomou conta da mesa era tão espesso que poderia ser cortado com uma faca. A mãe, a irmã mais velha e até mesmo o cachorro sentado ao lado do sofá olharam para a garota mais jovem com a maior cara de espanto. Depois olharam para o pai, esperando sua reação, que estranhamente não veio. Ao contrário, o homem sequer piscou. Também não disse nada. Com um sorriso nos lábios e um brilho estranho no olhar, ele continuou simplesmente cortando pedaços de um bife e depois levando-os a boca. Depois mastigava e engolia tudo, metodicamente, como um ritual. Entre uma garfada e outra, ocasionalmente levava o cálice de vinho aos lábios e bebia um gole, como se nada tivesse sido dito.
No dia seguinte, bem cedo, foi com a filha até a clínica do Dr. Laerte. Dessa vez ninguém chorou, ninguém argumentou, ninguém ousou sonhar. Definitivamente, depois do nascimento de gêmeos e as contas inesperadas com o pediatra, parto, remédios, enxovais e internação em quarto particular, concluíram que uma terceira criança em menos de um ano seria “benção” demais para uma família só. (*)
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Aviso: Antes que eu alguém pense qualquer coisa, quero deixar claro que esse conto é 100% ficcional. Qualquer semelhança com casos acontecidos com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Também não é minha intenção fazer apologia de qualquer tipo de posicionamento ideológico ou defender/criticar leis vigentes no país. Marcadores: Contos, Literatura, Pessoal
terça-feira, 20 de outubro de 2009

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Ollie às 7:28 AM |

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Se acaso uma das 300 estrelas que estão no espaço contido 35
anos-luz ao redor do Sol explodisse, só o saberíamos muitos anos depois, porém de forma espetacular: em questão de horas, ela se tornaria um objeto mais brilhante que o Sol, de uma luz-branca, cegante como a chama de uma solda elétrica.
A noite desapareceria e em em seu lugar teríamos um "dia" azulado, irreal; a pele das pessoas assumiria uma cor cadavérica por causa da iluminação e a radiação emitida pela supernova oxidaria gradativamente todo o nitrogênio da atmosfera. A camada de ozônio que protege a superfície da terra da radiação ultravioleta do nosso sol desapareceria e estaríamos expostos a radiação letal tanto da estrela agonizanbte, quando do Sol.
A essa altura, boa parte dos seres vivos já estariam cegos pela luz e pela radiação e em questão de meses toda a vida vegetal e animal da superfície da Terra desapareceria, só restando talvez os seres unicelulares e alguns vermes existentes nos abismos marinhos para começar tudo de novo.
Marcadores: Ciencia
sábado, 17 de outubro de 2009

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Ollie às 3:39 PM |

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Falar sobre um filme do Tarantino é meio complicado, porque o Tarantino tem muitos fãs. E, como a maioria das pessoas gosta dos filmes dele, a mínima discordância é motivo para que você conquiste inimigos ferozes para o resto de sua vida. Ou provoque decepções que provavelmente abalarão suas amizades virtuais internet afora. Oh, céus... :)
Então, deixe-me dizer uma coisa logo no início desse texto, porque assim, se você é um desses fãs cegos e incondicionais da obra de Quentin Tarantino, essa será a oportunidade de ouro para você parar de ler esse texto e ir navegar no twitter ou fofocar no MSN: A verdade é que eu não gosto dos filmes do Tarantino. E sempre achei Kill Bill superestimado. Pronto, falei!
Bom, agora que as coisas já ficaram claras entre nós e ficou óbvio que não serei condescendente com a obra de Tarantino, apenas porque ele é considerado um “mestre” por alguns críticos, deixe-me dizer que Bastardos Inglórios já começa mal para mim, porque aborda um tema que particularmente abomino no cinema: Segunda Guerra Mundial. Se você quer me desagradar me chame para assistir um filme de guerra. Principalmente Segunda Guerra Mundial, um tema que eu particularmente odeio. As chances de eu não gostar de um filme desse tipo giram em torno de uns 60%, mesmo naqueles casos onde a guerra é usada apenas como pano de fundo para contar uma história, como por exemplo em Casablanca (1942) ou A Vida Bela (La Vita Bella – 1997). Existem exceções, claro. Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981), por exemplo, foi uma delas.
No geral eu posso dizer, através de uma aproximação grosseira, que Bastardos Inglórios é apenas uma versão Cult de filmes psicóticos menos incensados, estilo Albergue e Sexta-Feira 13. Na minha classificação entra para o rol daquele tipo de filme no qual o sangue espirra da tela no seu saquinho de pipoca e os olhos ficam cansados de ver pessoas morrendo como moscas depois de uma boa borrifada de Detefon.
A diferença entre Bastardos Inglórios e esses filmes sangrentos (e nojentos) que mencionei no parágrafo anterior, fica por conta dos bons diálogos e interpretações maravilhosas, como por exemplo o trabalho do ator austríaco, Christoph Waltz, intérprete do infame coronel da SS Hans Landa. Waltz faz chover, ventar, trovejar e relampejar no filme. Até Brad Pitt, cuja arte interpretativa melhorou bastante nos últimos anos, desaparece – e é esquecido – quando Christoph Waltz entra em cena. O ator austríaco rouba as cenas e você se pega hipnotizada por sua interpretação. Não foi à toa que ele conquistou o prêmio de “melhor ator” em Cannes por conta disso.
Porém, o Tarantino não seria o Tarantino se ele não conseguisse “cagar” tudo. Aliás o Tarantino, quando não consegue cagar no meio dos seus filmes, caga no final. Mas sempre caga, porque é um cineasta cagão: De repente, um diálogo cheio de reflexões filosóficas, raiva contida ou humor negro entre os personagens se transforma numa cena de carnificina digna de figurar na arena do Circo Máximo, na Roma Imperial. Você gosta disso? Bom, eu não gosto. Não curto mesmo o uso excessivo e essa glorificação da violência, das armas e do instinto de vingança que o Tarantino promove em seus filmes. Não gosto e não curto. Estou sendo redundante? Ótimo, porque assim vocês entendem o que me irrita nas obras dele.
E depois os filmes dele sempre tem alguma reviravolta estranha que a princípio é até interessante, mas depois de ser observada em repetição eterna em quase todos suas obras, transforma-se numa receita e prova que a tal “genialidade” é apenas “fórmula” para fazer filmes de sucesso.
Drink no Inferno, por exemplo, começa como um Road movie, com o delicioso do George Clooney e o próprio Taranta tocando o terror e assaltando geral, uma espécie de Butch Cassidy and the Sundance Kid ou Telma & Lousie para machos, e depois vira um filme de terror classe B, cheio de vampiros bisonhos. Meu cu. Talvez a intenção inicial fosse mesmo aquela - Um filme de vampiros -, porém o efeito geral é tosco. A certa altura da história você se pega pensando: “WTF?” O que esses vampiros estão fazendo aí? Esqueça... Os vampiros apareceram para justificar o título obscuro, acho: From Dusk Till Dawn.
Já para aqueles que amaram Kill Bill e ovularam com a Uma Thurman fazendo caras e bocas enquanto fatiava inimigos como se fosse uma sushiwoman, Bastardos Inglórios não decepciona: É um filme sobre vingança. Porém, como é também um filme do Tarantino, a mãozinha pesada do cineasta entra em cena e a história descamba para o sadismo: A primeira coisa que morre em Bastardos Inglórios é a realidade histórica: um bando de Judeus índios tirando escalpos de soldados da SS e um Hitler tão caricato que parece até personagem foragida do 'humorístico' Zorra Total.
E, por falar em Zorra Total, o humor sádico presente durante quase toda a história (o qual eu confesso, curti um pouco), desaparece a certa altura do filme (Porque parece que até o humor negro “morre” em filme do Taranta) e sobra apenas a carnificina para preencher as lacunas criadas pela falta de diálogos. Podemos nos perguntar: O que não morre num filme do Tarantino? A vontade de matar, provavelmente.
Marcadores: Arte, Cinema, Opiniao