domingo, 22 de novembro de 2009

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Ollie às 12:59 AM |

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Conheço muita gente que abomina o estilo cinema catástrofe do novo filme do alemão Roland Emmerich (Independence Day, Dia Depois de amanhã), porém eu preciso ser franca e dizer que adorei o filme, apesar de nos momentos finais 2012 ter perdido um pouco o ritmo.
Muita gente por aí criticando o uso excessivo de clichês e a falta de “diálogos consistentes” no roteiro, mas – Hello? – me digam quem é que vai ao cinema ver esse estilo de filme esperando um roteiro bem construído, personagens "densas" e diálogos primorosos? :)
Preste atenção e faça uma análise: Todos os filmes “catástrofe” que você conhece estão recheados de clichês e sérios furos de roteiro. Não escapa um, nem mesmo aqueles melhorzinhos e 2012 não é exceção. Os produtores sabem que o espectador desse tipo de filme não está muito preocupado com diálogos primorosos, interpretações artísticas e roteiros inovadores. O que interessa ao público pagante são os efeitos especiais, as cenas de destruição, a sensação de medo sobre a incerteza do futuro, etc.
Filmes catástrofe são como filmes de terror, só que lidam com o medo humano de outra forma, sem apelar para o sobrenatural. Neles os atores principais são a natureza inclemente e as casualidades fatais, enquanto os atores humanos são praticamente figuração: estão ali para fazer caras & bocas, dizer uma frase clichê – Geralmente “Oh, my Goood!” - e depois morrer.
Quanto a 2012, o tema é diferente, mas o roteiro é bem parecido com o de “O Dia Depois de Amanhã”. Porém, enquanto “O Dia Depois de Amanhã” tem um clima ostensivamente panfletário, crítico e até mesmo duro com os países do dito 1º Mundo, 2012 aparentemente passa em brancas nuvens, sem qualquer tipo de mensagem política ou alerta moral ao espectador. Pelo menos é assim que pensamos ao ver aquelas cenas de destruição se desenrolarem diante de nossos olhos, mas no fundo, pensei melhor e concluí que não é bem assim. Emmerich tentou sim passar uma mensagem do tipo: “Ter dinheiro faz diferença”.
No filme são os países ricos (com melhor tecnologia e recursos) os primeiros a descobrir a magnitude da destruição que está por vir e, justamente por terem recursos e tecnologia superiores, eles saem na frente na corrida pela construção de espaçonaves (arcas) onde somente a riquíssima elite mundial, que financiou a construção dessas arcas, tem garantia de embarque na última jornada em busca da sobrevivência. O restante da população mundial está imediatamente excluído, condenado, refém de sua pobreza e ignorância.
Assim, digamos que nas arcas de 2012, na hora de escolher quem se salva ou não, acontece o mesmo que no naufrágio do Titanic, onde os responsáveis pela salvação dão preferência aos integrantes da classe social mais abastada, aqueles que pagaram passagens de 1ª classe, enquanto o populacho é abandonado à própria sorte.
[A partir desse parágrafo existem spoilers e se você ainda não viu o filme e se incomoda com o uso de spoilers, não leia] Segundo o roteiro de 2012, o gatilho para a destruição da Terra está no Sol. Explosões solares enviam radiações maciças contra o nosso planeta e fazem o manto (camada imediatamente abaixo da superfície), ficar mais fluído e ativo. O resultado disso é o aumento da atividade sísmica e vulcânica que faz as placas tectônicas colidirem ou afundarem e a crosta terrestre entrar em colapso, afundando devido aos intensos terremotos e arrasadores tsunamis.
O pessoal que foi assistir esperando ver detalhadas cenas de destruição no Rio de Janeiro deve ter ficado frustrado, pois a visão do Cristo Redentor caindo é tão rápida que se você piscar, perde. Ela é inserida no contexto onde os noticiários informam a total destruição da América do Sul, devido a intensos terremotos e vulcanismo que abalaram o subcontinente. E então, nesse momento, aparece em uma imagem de TV, o Cristo Redentor ruindo, enquanto mencionam no filme que as imagens da catástrofe no Brasil foram “gentilmente cedidas” pela Globo News. Sim, pasmem, eles mencionam a Globo News, mas eu imagino que deve ser a filial nos EUA, porque pelo filme, a essa altura todos os brasileiros, argentinos, uruguaios, etc. já estavam vendo os peixinhos fazerem glub-glub há tempos.
As cenas inverossímeis de 2012 são as mais legais e são três: a personagem de John Cusak e os filhos (chatíssimos) fugindo da explosão da Caldeira de Yellowstone; a fuga radical dessa personagem e família, dentro de uma limusine, pelas ruas de Los Angeles enquanto o mundo vem literalmente ao chão e, por último, a cena do avião decolando numa pista que se dissolve em pedaços debaixo de suas rodas e depois eles voando por entre os prédios que caem ao redor. É tudo muito inverossímil, mas ao mesmo tempo emocionante. Meu namorado e várias pessoas ao nosso redor, nesse momento, estavam em transe.
Como esperado em filmes anteriores, tirando a apática família do protagonista, o Presidente negro(Danny Glover) e os integrantes politicamente corretos do elenco (o atrapalhado cientista negro e sua namorada, a filha do presidente), Emmerich não mostra os líderes da operação com bons olhos. Um deles, o auxiliar do presidente norte-americano interpretado por Oliver Platt, é um político sem escrúpulos que venderia a família no mercado para conseguir o que deseja.
Porém, por outro lado, Emmerich mostra com muita simpatia os russos: o piloto Sasha, por exemplo, interpretado pelo ator estoniano, Johann Urb, se comporta como o mais perfeito exemplo de herói que conhecemos (além de ser lindo, loiro, forte e ter um tórax apolíneo); outro russo que se destaca no filme é o bilionário, supostamente um cruel integrante de uma das mais violentas máfias do mundo, o qual mesmo assim tem o seu lado paternal destacado.
Tudo lindo, mas com olhos carinhosos mesmo, Emmerich contempla os chineses, embora também não os poupe de certa dose de ironia.
No filme é justamente a China a última parte da superfície terrestre a sofrer com o cataclismo, além de ser a tecnologia e mão-de-obra chinesas as responsáveis pela criação das tais arcas. A ironia fica por conta do "defeito" que ocorre em uma das arcas (como quase tudo o que é produzido e importado Made in China no Ocidente), o que deixa os refugiados em maus lençóis no terço final de 2012, porque fica todo mundo mergulhando tentando liberar manualmente umas correntes que prendem sua arca - os computadores e mecanismos que deveriam fazer isso não funcionaram.
Achei "O Dia Depois de Amanhã" melhor que 2012, embora as cenas de destruição desse último sejam o que de melhor a tecnologia em computação gráfica produziu, os diálogos e a mensagem do primeiro são superiores. Apesar disso, 2012 cumpre bem o seu papel, isto é, diverte, passa o tempo, enquanto faz o espectador pensar na própria mortalidade e deixa um medinho, não do fim do mundo, mas da nossa fragilidade diante das forças da natureza.
Marcadores: Cinema, Opiniao
segunda-feira, 16 de novembro de 2009

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Ollie às 3:41 PM |

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Hoje, na TV aberta, passou o filme “Notas Sobre um Escândalo”

(Notes on a Scandal Reino Unido, 2006), com Judi Dench (Shakespeare in Love, Pride & Prejudice) e Cate Blanchett (O custo da Coragem, O Aviador). O filme do diretor Richard Eyre é relativamente recente, 2006, e recebeu quatro indicações para o Oscar, porém eu suspeito que hoje foi a primeira vez que ele passou na TV aberta, e em um horário bem cruel: plena madrugada de segunda-feira, quando somente poucos aventureiros, como eu, ousam ligar a TV. Tudo isso por conta dos temas polêmicos que aborda, tenho quase certeza.
Quem assiste Notas Sobre um Escândalo pode pensar erroneamente que trata-se apenas de uma história de envolvimento sexual (e criminoso) entre uma professora relativamente jovem e bonita, Sheba Hart (Kate Blanchett), e seu aluno de quinze anos, Steven Connelly (Andrew Simpson), mas o filme vai além disso. O diretor Richard Eyre fez um trabalho maravilhoso e, dentro das limitações dos 92 minutos de filme, relativamente fiel ao adaptar o romance “What Was She Thinking?”, de Zoë Helle, para o cinema. Ao optar por manter a narração em off (presente no livro), o diretor nos permite ter uma vaga noção de como a mente de um stalker maníaco compulsivo, Barbara Covett (Judi Dench), funciona. Gostem os críticos de cinema disso ou não, esse é exatamente o "espírito" presente no livro.

Embora não exista uma declaração explícita no filme sobre sua sexualidade, percebemos de cara que Barbara é uma lésbica de meia idade, carente, reprimida e solitária que costuma desenvolver tendências românticas e obsessivas por mulheres mais jovens e bonitas. Barbara é aquilo que os norte-americanos chamam de "
stalker" e o grande problema com ela é o fato de não hesitar em manipular, ameaçar e até mesmo destruir os relacionamentos de suas vítimas para conseguir o que deseja.
Dessa vez, sua vítima é Sheba, a professora novata. Ao descobrir o envolvimento sexual entre a jovem mulher e Steven, um aluno de apenas quinze anos, Barbara aproveita-se desse segredo para forçar uma aproximação com Sheba. Manipuladora e maquiavélica, Barbara não ama ninguém a não ser ela mesma. E isso fica comprovado no momento em que ela não hesita em revelar, por pura vingança, o envolvimento entre a Sheba e o aluno na primeira oportunidade em que se sente rejeitada pela “amiga”. Depois, cínica, louca e até mesmo um pouco alienada, Barbara não tem o menor escrúpulo em aproveitar-se do caos que provocou para oferecer sua casa como refúgio seguro para Sheba. Porém, quando as suas manipulações e delírios românticos são descobertos, ela se comporta como vítima de grandes injustiças e acaba sua história relativamente ilesa, embora ainda solitária e pronta para se aproximar do seu próximo alvo romântico.
Notas Sobre um Escândalo começa como uma narrativa sobre a vida medíocre de várias personagens contemporâneas e acaba de maneira pessimista, nos mostrando a vida em um mundo cercados por românticos ingênuos e oportunistas emocionais psicóticos.
Destaque para a trilha sonora de Philip Glass, sempre em sitonia com todas as cenas.
Marcadores: Cinema, Opiniao
sexta-feira, 6 de novembro de 2009

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Ollie às 11:57 PM |

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Minha tia adora cães, mas não entende nada de cachorros. Isso é fato.
Há alguns anos atrás uma vizinha doou-lhe um filhote de pintcher mentindo descaradamente que o bichinho era um mestiço de pastor-alemão. Pastor-alemão, imaginem vocês. Quando vi o bicho meses depois, saquei que a mulher havia mentido, mas minha tia ingenuamente acreditou que o cãozinho com manchas amarelas e negras semelhantes às de um “pastor capa-preta” cresceria e se tornaria um ferocíssimo defensor da casa. Portanto ela adotou e batizou o filhote com o singelo nome de “Negão”.
É isso mesmo o que vocês leram, minha tia, que nunca teve noção alguma sobre a discussão a respeito de racismo e de como a classe média é um nicho social cheio de preconceitos e blá, resolveu homenagear o pintcher na cor que mais chamava a atenção no momento da adoção: a cor negra. Na cabeça dela o cachorro ficaria enorme e Negro. Intimidante, etc. Então "Negão" seria um bom nome. Ela se enganou duas vezes: a primeira ao pensar que o animal ficaria grande e a segunda ao escolher o nome, o qual se revelou uma fonte de constrangimentos sociais diante de amigos e vizinhos.
Como esperado, genética é genética e o pintcher cresceu e se tornou um... pintcher. Um pintcher gigante, porque – lógico- era um mestiço, mas mesmo assim bem longe de se tornar um animal de porte médio, quanto mais um de grande porte.
A única coisa que a minha tia acertou a respeito do seu pet, além da cor predominante, foi sobre sua ferocidade. O que lhe faltava em tamanho, sobrava-lhe em valentia e chatice. Negão era um dos cachorrinhos mais bravos e ranhetas que você pode imaginar. Ruim para comer, o bicho era magérrimo e corria veloz como um galgo ao redor da casa, latindo e provocando o maior escarcéu diante da suspeita de presença de estranhos. Traiçoeiro, Negão fazia a maior manha quando ficava doente e precisava tomar injeção. Sempre tentava atacar e morder quando era medicado e depois solto. Eu mesma, quase já fui mordida pelo pestinha uma vez.
O problema é que ele não podia sair à rua, pois adorava atacar estranhos de forma traiçoeira, principalmente ciclistas. Uma vez essa mania de atacar traiçoeiramente, aliada ao seu nome, quase rendeu uma briga na rua com um dos vizinhos. Já era mais ou menos umas seis horas da tarde e estávamos conversando tranquilamente em frente ao portão.
Sem que percebessemos o cachorrinho ranheta havia escapado e se postado ao lado de minha perna. Só percebemos o acontecido quando ele disparou latindo furiosamente em direção à rua, mas era tarde demais para pegá-lo ou impedí-lo. A única reação de minha tia foi gritar em alto e bom som o nome do cachorro.
_ NEGÃOOOO!
Nesse momento o ciclista e o cachorro pararam instantaneamente. Tarde demais, percebemos que o ciclista era um homem jovem, enorme e... Negro. O pobre parou a bicicleta e nos olhou de uma forma tão indignada, revoltada e... não sei nem definir. Ele estava com raiva e ia nos xingar ou coisa pior. Tudo o que sei é que eu fiquei pálida observando o rosto dele. Minha tia, coitada, ao perceber o mal entendido ficou amarela, depois verde. Eu fiquei vermelha e o homem, empalidecido de indignação, estava cinza. Tudo o que me passou pela mente é que aquilo daria o maior quiprocó com xingamentos, cadeia, processo na justiça por racismo e tudo mais, porém nesse exato momento o homem viu o cachorrinho preto voltando para perto de minha tia, o rabinho encolhido entre as pernas, arrependido.
Foi aí que ele entendeu. Balançando a cabeça e sorrindo, o homem lançou-nos um último olhar antes de voltar a pedalar sua bicicleta, seguindo o caminho. E nós duas, sem dizer mais nada sobre aquela gafe monstruosa, seguimos com nossa vida e nunca mais comentamos sobre o ocorrido.
Depois disso, e já faz anos que essa cena aconteceu, minha tia passou a chamar o cachorro de “Nê” ou “Ney”. Ele já está bem velhinho e se acostumou com a nova forma de seu nome.
Quanto a minha tia, hoje ela até que tem outro cachorro, um basset mestiço.
Seu nome é Fred.
Marcadores: Comportamento, Pessoal
segunda-feira, 2 de novembro de 2009

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Ollie às 4:00 PM |

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O condicional: “Seguinte: eu só te sigo se você me seguir de volta”;- O swingueiro: “Olha, primeiro eu te sigo, depois é a sua vez, okay?”
- O compulsivo: “Vou te seguir de perto feito sombra”. Quando você for ao banheiro, estarei lá, te esperando”; “ Quando você estiver dormindo, o bafo quente que você sentir no cangote será o meu”.
- O paranóico: “Quem, em nome do @criador, são essas pessoas que não conheço me seguindo?” [ele reclama, mas na realidade gosta. ;)]
- O placa-de-trânsito: “Indico @fulano; indico @cicrano; etc.”
- O carente: “Ah, ninguém me segue? Ninguém que eu sigo me segue de volta, chuif... :´( “ [O dó, alguém dá um lencinho para ele (a)?]
- O chiliquento: “Puta que pariu, eu sigo esses filhos da mãe e eles não me seguem de volta. Vou dar unfollow em todos esses ingratos. ”
- O interesseiro: “E qual é mesmo a sua relevância na internet para que mereça ser seguido por mim?”
- O fã incondicional: “Oi, [insira aqui o nome de uma celebridade], sou seu (sua) fã. Adoro seu trabalho e estou te seguindo, ok? [insira aqui um símbolo representando a expectativa dele (a) de receber um reply ou – Glória nas Alturas – ser seguido de volta pela celebridade que bajula ]
- O comerciante: “Pessoal, estou fazendo campanha para chegar aos [insira aqui um número que represente a meta a ser alcançada por ele] followers. Me ajuda aí e me indique para seus seguidores. Grato (a) “
- Homem do Baú: Vive prometendo sortear brindes para os seguidores.
- O contador: Faz cálculos para saber quantos followers faltam para completar [insira aqui o número desejado por ele]
- O negociante: “Todo mundo que me segue, em breve será seguido de volta e eu vou indicar para os meus outros [n] seguidores.”
- O invejoso (a): Esse fica preocupado com os seguidores dos outros – “Esse @fulano (a) tem muitos seguidores, porque usa script”
- Garoto (a) Reply: Vive conversando (na maioria das vezes sozinho) no twitter, de preferência com twitteiros que ele (a) acredita ter alguma relevância na meritocracia informal da internet (seja lá o que for que isso signifique). Se você tem menos de 150 seguidores, nem perca tempo, ele não vai dirigir-lhe a palavra, quanto mais seguir de volta.
Existem mais tipos, lógico, porém esses são os mais fáceis de encontrar por lá. Aliás, são os tipos que mais me ocorreram, quando resolvi escrever esse post.
Marcadores: Humor, Internet, Opiniao
domingo, 1 de novembro de 2009

Publicado por
Ollie às 9:04 PM |

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Quando a filha mais velha apareceu em casa e disse que estava grávida foi um pandemônio. Tradicionalíssima família católica, para eles era inadmissível que uma filha perdesse a virgindade antes de se casar de véu e grinalda. Uma gravidez de mãe solteira, então? Nossa, para eles o que de pior poderia acontecer no seio de uma família.
O pai reagiu com violência. Atirou coisas na parede. Xingou.Ameaçou. Exigiu saber o nome e o endereço do pai do bebê.Queria lavar sua honra, obrigar o D. Juan a assumir a responsabilidade nem que para isso tivesse que surrá-lo até quase a morte. Porém toda essa ira esvaziou-se feito um balão furado quando a filha disse, chorando, que não sabia quem era o pai. Sim, ela não sabia dizer quem era o pai, sequer conhecia-lhe o nome. Tecnicamente poderia ser qualquer um.
Tudo havia acontecido cerca de três meses atrás na época da excursão escolar organizada durante as férias de verão. Os professores levaram os jovens interessados de duas classes do 3º ano do ensino médio para um encontro de jovens. Nada mais seguro, pensaram os pais. Nada mais enganoso, porque foi justo nesse evento, durante um dos longos passeios organizados através da bucólica paisagem salpicada de cachoeiras e pequenos bosques, que a pequena libertina envolveu-se numa rápida orgia com mais cinco jovens com idades variando entre 16 e 17 anos. Todos desconhecidos. Ninguém usou preservativo!
Ao constatar o fato, confessado entre soluços e lágrimas pela filha, o pai simplesmente sentou-se numa cadeira e chorou de vergonha durante horas. A mãe soluçava desesperadamente de um lado e a filha chorava baixinho de outro, o som lamuriento de seu pranto mal escapando dos lábios rosados, enquanto escondia a vergonha estampada no rosto de princesa celta atrás dos longos cabelos castanhos.
_ E agora? _ Soluçou a mãe, depois de enxugar o nariz gotejante na barra de um gracioso avental de algodão branco.
_Agora só tem uma saída _ Disse o pai com uma expressão sinistra.Surdo aos rogos da esposa e menos ainda o choro assustado da filha, o homem estava irredutível. Não passaria por essa vergonha. E não estava disposto a sustentar um neto bastardo, filho de pai desconhecido. Tinha um nome a zelar, afinal de contas e não seria a libertinagem daquela pequena rapariga que colocaria tudo a perder. No dia seguinte, bem cedo, ligaria e marcaria um horário com o Dr. Laerte, médico de confiança e seu amigo desde os tempos de colégio.Porém, sua consciência o acusava.
Afinal de contas, existia toda uma herança cultural católica romana por trás de sua criação e, por conta disso, ele custou dormir naquela noite. Quando caiu no sono, teve um sonho muito estranho, muito real. No sonho ele estava na cama e tentava dormir, mas o choro lamurioso de uma criança o incomodava. De repente, uma voz dulcíssima emergiu por sobre aquele choro de criança e chamou-o pelo nome.
_ Quem? Quem me chama?
_ Sou eu, o guardião da alma de seu neto, eu estou aqui para interceder por ele. O que você pretende fazer hoje pela manhã será uma falta terrível aos olhos de Deus e você sabe disso. Você estará interferindo nos planos divinos ao impedir o nascimento desse ser inocente. Toda vida é um dom. Toda vida é preciosa...
_Mas... Eu não posso permitir que isso aconteça. A minha filha é muito jovem para ser mãe.
_ O Universo tem razões que a própria razão desconhece. Essa vida que está por vir tornar-se-á uma fonte de alegrias e bênçãos para sua família. E sua filha não ficará desamparada. Ela contará com o amor de vocês como fonte de consolo. Lembre-se: “toda vida é preciosa”. Deus proverá. Confie, tenha fé.
O homem acordou chorando. Nunca em toda sua vida havia sonhado com um anjo. Lembrou-se da história de José e emocionou-se ainda mais. Eram sete horas da manhã e dali a pouco teria ir até a clínica do outro lado da cidade, marcar um horário, combinar tudo com a maior discrição possível. Porém nem continuou pensando nesse assunto. Descalço e com os cabelos revoltos pelo sono, correu para o quarto da filha e a encontrou ainda dormindo, a mãozinha branca e delicada repousando sobre o ventre ainda plano, como se quisesse proteger a vida que ali crescia, alheia aos acontecimentos do mundo externo.
_Filha... Filha! _ Praticamente gritou ao abraça-a._Eu te amo, eu te amo, filha... Você é minha princesinha querida. Não vamos mais naquele lugar terrível. Vamos dar um jeito, eu, você e sua mãe. Nós vamos enfrentar isso todos juntos como uma família. E nem me importo com o quê pensarão sobre essa gravidez, eu vou apoiar você, filha; eu vou assumir esse neto, ou neta.
_Oh Papai! _A jovem abraçou-o em prantos. A mãe que assistia tudo da porta correu para abraçá-los e a irmã caçula, que sequer tinha noção do que estava acontecendo ficou olhando através do umbral com expressão surpresa estampada no rosto.
_ Toda vida é uma benção. Nossa família foi abençoada. Abençoada! _ Dizia o pobre homem, enquanto lágrimas de beatitude rolavam de suas faces magras.
Cerca de sete meses depois a filha deu à luz aos filhos. Gêmeos!
Duas semanas depois do batismo de Douglas e Diego, a filha caçula achou por bem anunciar, solenemente, durante o jantar:
_Pai, estou grávida!
O silêncio sepulcral que tomou conta da mesa era tão espesso que poderia ser cortado com uma faca. A mãe, a irmã mais velha e até mesmo o cachorro sentado ao lado do sofá olharam para a garota mais jovem com a maior cara de espanto. Depois olharam para o pai, esperando sua reação, que estranhamente não veio. Ao contrário, o homem sequer piscou. Também não disse nada. Com um sorriso nos lábios e um brilho estranho no olhar, ele continuou simplesmente cortando pedaços de um bife e depois levando-os a boca. Depois mastigava e engolia tudo, metodicamente, como um ritual. Entre uma garfada e outra, ocasionalmente levava o cálice de vinho aos lábios e bebia um gole, como se nada tivesse sido dito.
No dia seguinte, bem cedo, foi com a filha até a clínica do Dr. Laerte. Dessa vez ninguém chorou, ninguém argumentou, ninguém ousou sonhar. Definitivamente, depois do nascimento de gêmeos e as contas inesperadas com o pediatra, parto, remédios, enxovais e internação em quarto particular, concluíram que uma terceira criança em menos de um ano seria “benção” demais para uma família só. (*)
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Aviso: Antes que eu alguém pense qualquer coisa, quero deixar claro que esse conto é 100% ficcional. Qualquer semelhança com casos acontecidos com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Também não é minha intenção fazer apologia de qualquer tipo de posicionamento ideológico ou defender/criticar leis vigentes no país. Marcadores: Contos, Literatura, Pessoal